segunda-feira, 15 de junho de 2009

Uma negativa

Muita coisa mudou. Os olhos são de um cinza quase branco. O que havia de pigmentação negra também saiu de outras partes do corpo. Estão com o mesmo acinzentado. Dentes amarelados e espaços cada vez mais amplos entre eles. De quando em vez devora as refeições. Noutras nem trisca. São os anos que escoram irregularidades.

Nem bem se sustentava quando o compramos. Eu era bastante jovem e tinha a mesma falta de criatividade de hoje. Gostava de nomes simples, mas terminei por aceitar a sugestão do meu irmão caçula. Ele assistia e sonhava com personagens de seriados. Jaspion, Jiraya, Power Rangers. Foi de um deles que saiu Jephy, que nem sabíamos a forma graficamente correta, mas assim parecia ser - como deveria - mais internacional.

Fui eu quem aguentou as noites de quase miados e se manteve vigilante, afastando os gatos matreiros circulantes do quarteirão. Desde Xuxa que o quintal estava espaçoso e crescia grama. De início a gente nem parou pra pensar que poodle é diferente de pastor alemão. Só percebemos dois meses depois, quando aconteceu da primeira noite do outro lado da porta. Ninguém conseguiu dormir. Os latidos já tinham mais força.

Aprendemos a dirigir cedo. Eu e minha irmã, com cerca de dez anos cada. Na praia, com limites longínquos. Havia de ser fácil essa leveza de não enxergar canteiro qualquer. A cidade não demorou a chamar e foi da vez que a gente começou a julgar que em casa quem mandava era nossa mãe. Vão perguntar a ela se pode, era o máximo que meu pai dizia.

Jephy chegou por último, começou a interagir com o espaço e as pessoas de uma maneira estranha e terminou por achar justamente o contrário. Colou nele, que sempre foi quem manteve toda a estrutura funcionando. Era o único que trabalhava e nos dava abrigo e comida. Dezesseis anos depois e os dois vivem juntos. Dormem, tomam café, almoçam, jantam, vão à praia e alguns eventos sociais. São fiéis a tal ponto que a velhice do outro parece preocupar ambos.

Haver vivenciado três pares de separações é que me fez preferir plantas. Elas soam num evocar de rede de balanço dependendo da intensidade do vento. Caso não deseje o bocejo, é só fechar as janelas. Abafar.

Em apartamentos conta ponto a praticidade. É fácil cuidar de plantas, especialmente quando são compradas em um viveiro, como todas as recomendações de como proceder, e para afastar qualquer dúvida, mantém-se placas como tudo detalhado. Quantidades em mililitros versus dias da semana.

No aniversário do ano passado foi que entrou uma que não tinha sido selecionada. Regalo de uma amiga. Veio num vaso vermelho do tamanho de uma laranja. Média, ainda mais. Pensei que fosse morrer. E foi sem esperanças que transplantei para uma acomodação maior. Como em outras, água duas vezes por semana.

Nosso convívio era morno até que a pus no hall de entrada. Lá de fora, parece vociferar. Água não quer mais beber. Em vão insisto agora só aos sábados. É o tempo de virar pra cuidar da vizinha e logo o chão está todo molhado. Começo a achar que pode lhe estar inundando uma carência de conversa. É um diagnóstico ouvido na televisão tempos atrás. O mesmo aparelho que fica quase sempre desligado, contribuindo com as ausências do recinto, como se recomenda fazer nos hospitais.

4 comentários:

Unknown disse...

As leituras cotidianas sempre me fazem sentir aconchego. Belas palavras, confortáveis frases.
Vc tem conseguido enfim atualizar como quer!
Abração

camilacorado disse...

seus textos mexem com o profundo dos meus pensamentos e imaginação. muito obrigada pela passagem. muito bom te ler.

como uma árvore se preencho de seiva, sangue corre nas minhas veias, felicidade transborda no meu rosto e, quando o outono chega, minhas folhas não só caem e se espalham, mas nascem novas no lugar, como um novo dia, uma nova vida. e eu só preciso do sol pra viver em paz e ser feliz.

um novo amigo? :)

Mme. S. disse...

pára tudo que eu quero entender: o jephy tá bem? ou aconteceu alguma transferência no paraíso?

Unknown disse...

Caro Angelo, vou tentando. Quando fica demais, arrisco uns guardados. É uma forma de compensação enquanto me formo dedicado feito você.

Camila, fico feliz em ter recebido tão bela indicação. Só amigos? Não!Virei seguidor assumido.

Sheylinha, minha for do serrado, Jephy está caducando. Mas o mundo do meu pai ainda continua de pé.

Beijos a todos.