sábado, 22 de junho de 2013

Jacquard e mangas arregaçadas




Coleção de estreia de Stefano Pilati para Ermenegildo Zegna sugere que homens dobrem mais que os punhos: arregacem mangas ao limite - e calças também - para uma primavera-verão confortável em 2014.
O ternos saem do tradicional e se ajustam principalmente na linha da cintura. Ganham contrastes e tecidos como jacquard - muito explorado desde a temporada passada nas coleções femininas. Para quebrar, sobre os costumes a modelagem é ampla, quadrada. E surgem também casacos e blusas finas.
Apresentada no Milan Fashion Week, a parte mais ousada da coleção revela boxers de seda sobre shorts. E para arrematar apareceram novamente os óculos de lentes miúdas e redondas, que não devem sair tão cedo de cena.



Fotos: Davide Maestri/ reprodução

Entregues a inversão



Quem são os estilistas que estão apostando na nova forma de misturar masculino e feminino? Sacamos alguns nomes gringos e marcas brasileiras que estão muito além das calças para elas, saias para eles e do que convencionou-se chamar de androginia na moda. Agora é a vez do militarismo para as mulheres e do animal print tomar conta da pele dos homens antenados. 

Até a cena underground cansou do preto básico. E foi com essa deixa que os animais mais exuberantes saltaram e tomaram conta da pele dos humanos que fazem da noite o cenário perfeito para lançar moda, nas mais altas rodas.
Um dos principais nomes desse circuito em Milão é o argentino Marcelo Burlon, que largou o frio da Patagônia para ser produtor de grandes marcas na Itália, tendo as portas abertas por Domenico Dolce e Ricardo Tisci, da Givenchy. Atuando também como DJ, fez festas e colaborou com grifes como Alexander McQueen, Chanel, Versace e Jil Sander.
Não abandonou, porém, sua inclinação para badalar e é criador da consagrada festa “Pink is punk”, com o estilo mais requintado e selvagem das ruas. Foi com base nessa experiência honesta de amor pela música e pela diversão que saíram alguns hits de sua coleção.
Burlon chegou à Itália no final dos anos 1990 e foi trabalhar como hostess em casas noturnas. Diz que viu os clubes envelhecerem enquanto ele e outros tantos serviam de seletores de porta. Era exigido um mix de moda e dinheiro dos frequentadores, o que terminou por envenenar o sistema cultural. E ele, com maestria, resolveu realizar um trabalho “sujo”, colocando dentro da roda pessoas realmente interessantes, que gritavam sua juventude.


Marcelo Burlon tem sempre 35 anos, cabelos pretos e barba cheia, olhos igualmente escuros e com brilho, nariz romano com piercing. É assumidamente gay e ama estampas de leopardo da Givenchy: sóbrias e sensuais.

Para heróis

Lee Sedman assina a direção de arte da novata Sons of heroes, que com apenas cinco coleções já ganhou muita gente de calibre que gosta e trabalha com música, como Rihanna e Justin Bieber, 2 Chainz e Wiz Khalifa.
Como o trabalho de Burlon, esse estilo contemporâneo de moda masculina explora o desejo selvagem e rebelde. A última coleção é tingida com a apresentação visual de David Bowie e seu alter ego, inventado na ebulição polícita de 1980: Ziggy Stardust.
Apesar das justaposições e da aparição de coletes e elementos mais soft, o estilo grunge mostra um animal difícil de ser domando. Leões, tigres, gorilas surgem digitalmente impressos em couro e malharia fina. A estampa zebrada obedece ao estilo tradicional ou pode aparecer encharcada de corante cor de rosa, num tom ácido de olhar e que garante fidelidade ao estilo punk da marca.
Marcas como a PRPS e a Leather Crown também mergulharam no universo instintivo e indomável para produzir peças marcantes, com spyke e mandíbulas ferozes.

Mulheres em marcha


Na principal passarela da moda brasileira, o São Paulo Fashion Week, a Ellus pisou firme no melhor estilo militar. Não abriu mão do camuflado – especialmente visto nessa estação em camisas e jaquetas –, mas inseriu outras importantes influências antes tidas como unicamente masculinas. Outro ponto importante: ousou colocar isso de maneira extremamente feminina, abusando do fetichismo.
Couro e vinil foram vistos em formas ora ajustadas ora quadradas. E foram combinados com um elemento extremamente poderoso  no jogo da sedução: o salto alto. Na verdade, no inverno, eles são altíssimos. E pedem amarrações firmes no tornozelo.


Aos seus pés

Um das apostas de Alexander McQueen – como de resto diversos outros grandes nomes do cenário mundial – é a volta das ankleboots, mais uma vez para provar que as passadas, como os gestos, exigem firmeza e atitude. Mas há contrapontos.
A japonesa Kenzo se associou a californiana Vans para projetar um animal print mesclado com a forte tendência do militarismo. Leon e Carol Lim, diretores da Kenzo, se inspiraram em animais encontrados nas florestas asiáticas, como o leopardo-nebuloso, e deram a sua pele uma espécie de camuflagem, em diferentes tons. Outras mistura de sucesso.  

*Matéria publicada na revista LivingFor.

Julieta Venegas desabafa




Consagrada em todo o mundo, ela enfrenta o dilema de criar a filha sozinha e ter de enfrentar na justiça uma ação movida pelo ex-companheiro, que pede reconhecimento da paternidade. Ser mãe afetou muitos sentidos, com ganhos claros para a música.

“Hoje posso confiar um pouco mais no que sinto”. É com essa frase que Julieta Venegas começar o novo disco, Los Momentos, gravado inteiramente em um estúdio próprio e quase sem se importar com os arroubos da crítica. Mas não é só isso: a iniciativa de estrear o espaço aconteceu em um momento especial, durante a última turnê internacional, quando descobriu que estava grávida.
A filha Simona nasceu a 8 de setembro de 2010 e desde então Julieta vive momentos difíceis, como o da recente contestação do músico argentino Rodrigo García Prieto, que assegura ser o pai da menina e ingressou com uma ação na justiça da família do seu país, pedindo o reconhecimento da paternidade.
“Foi muito importante porque escrevi e gravei no mesmo lugar, que considero minha segunda casa (...) Algo mudou em mim, algo me pedia outras sonoridades, outras histórias, outra direção. E necessitava me comunicar, que é uma grande razão para escrever: o desabafo”, expõe.
O processo gerou um grande imbróglio, já que a cantora é porta-voz da UNICEF e a privação do sobrenome do pai no registro de Simona, além da recusa de deixá-la passar temporadas na Argentina, se contrapunha aos princípios da entidade que defende os direitos das crianças.
No campo artístico, porém, a maternidade lhe abriu uma nova comporta de experiências e afetou totalmente a criatividade dessa artista que já vendeu mais de sete milhões de discos em todo o mundo e arrebatou seis prêmios Grammy, sendo um internacional e cinco latinos.
Apesar dos conflitos, Julieta não esconde sequer sua faceta mais frágil, já revelada em composições de outrora. A terceira faixa do álbum “Otra Cosa” tem essa confissão:  “Debaixo da minha língua se escondem as palavras que revelam tudo de mim. Poderia te dizer das minhas inseguranças e do quão pequena chego a me sentir.”
As novas letras tem outro tom, de revolta. Mas a combativa cantora nascida nos Estados Unidos pelo sonho dos pais mexicanos, que atravessaram a fronteira, continua a fazer uma linha pop particular, como o infinito de Marisa Monte, sua principal parceira no Brasil. É elegante a despeito das muitas experimentações com riffs de sintetizadores, batidas eletrônicas e acordeons, instrumentos de sopro e a voz lamentosa que deixa clara sua entrega. Exposição essa que os brasileiros tem o privilégio de ver de perto entre esse maio de junho.

Foto: Gustavo Dimario/ cedida
*Matéria publicada na revista LivingFor. Texto e fotos contém direitos autorais. 

Redescobrindo Fernanda Porto


Viver de idas e vindas é, além de construir uma carreira consistente, o movimento escolhido por Fernanda Porto para fugir da monotonia, assim como faz ao tocar vários instrumentos para a surpresa do público que espera assistir apenas a apresentação de uma cantora. Ela acredita que ter espaço no cenário internacional – principalmente para quem trabalha a música unindo harmonias sofisticadas e o suingue brasileiro – é objetivo de todo artista. Mas poucos têm a paciência e respeitam um tempo que é diferente e, sobretudo, se entregam a esse ciclo.


O cotidiano de um mulher que faz todo dia tudo sempre igual, cantado por Chico Buarque, poderia ter sido inspirado em Fernanda Porto, que tem decorados todos os passos e fachadas dos prédios que cruza diariamente quando vai ao estúdio de gravação, construído há cerca de dez anos, como se caminhasse para chegar ao emprego. “Posso fazer o mesmo trajeto sempre, mas posso também tocar piano sem me preocupar com a hora”, equaliza.
Bater o ponto em branco e negro e experimentar novos instrumentos faz parte da rotina incansável da multi-instrumentista que só se ausenta nos períodos de gira internacional. E as turnês estão presentes na carreira de Fernanda, no mínimo uma vez ao ano, desde 2002, quando o hit “Sambassim” a fez estourar no Brasil logo depois de ser executado em todas as boas danceterias de Londres, remixado pelo DJ Patife.
Aquela época foi um turbilhão de desafios e desgaste físico. Fernanda chegou a fazer 25 shows num intervalo de 28 dias, passando por dez países da Europa. Mal conseguia descansar, quiçá conhecer as cidades, com fez durante a temporada desse ano, terminada em maio, por Portugal, Itália, Finlândia e a Londres do roteiro de sempre. Ela esteve ao lado de outra multi-instrumentista, Christianne Neves, com quem se revezava no piano, guitarra elétrica, cavaquinho, sax, bateria e mais uma parafernália.
“Tivemos a sorte de participar de grandes festivais, como é o caso do “Frutas tropicais”, na Finlândia, e conseguir muitos instrumentos, inclusive um piano de cauda. Normalmente se viaja com menos recursos técnico e ter essa oportunidade é uma alegria pra mim que sempre gravei instrumentos acústicos, apesar do trabalho com influência eletrônica”, conta.
Essa surpresa veio junto com outra, que normalmente se repete. “Muita gente vai aos shows esperando ver apenas uma cantora e se depara com duas mulheres que tocam de um tudo. É fácil a gente perceber o espanto e a curiosidade que isso causa na plateia”, diz Fernanda, que se preocupada cada vez menos em observar a reação do público, como forma até de prevenção.
“O principal que tento fazer é ficar inteira, resgatando o cerne das canções. Já tive a fase e o processo de ficar observando e acho que poderia sair frustrada se continuasse assim. Em alguns países a crítica é muito boa, o bis acontece, mas as pessoas interagem menos. Por isso é que hoje tento ficar mais à vontade. Sei que ganho mais sendo sincera e agindo com naturalidade. Eu falo, apesar da timidez. Muitos cantores ainda não perceberam, mas as pessoas não querem só ouvir música, elas querem também conversar.”


“Eu falo, apesar da timidez. As pessoas não querem só ouvir música, elas querem também conversar.”

Timidez e linhas tortas

Nem a carreira de mais de uma década somada a experiência em outros países fez Fernanda Porto superar um laço de acanhamento. O processo de criação é sempre muito isolado e o máximo que ela consegue é trocar com outros artistas na hora da gravação. Reconhece os benefícios das diferentes interpretações da sua música, embora ainda lhe falte desprender dessa partitura de linhas tão rijas. “Com os palcos eu melhorei um pouco, mas ainda continuo sendo uma pessoa muito tímida nesse sentido.”
Uma das quebras dessa barreira aconteceu recentemente, num projeto que misturava pockt show e bate papo. Ela cantava e entrevistava personalidades como o goleiro Zetti, o apresentador Ronnie Von e o navegador Amyr Klink. “Estudei muito sobre a vida de cada um e acho que até me dei bem.”
O encabular talvez cause um comportamento estranho de se ver em um artista. Fernanda tem experimentado e garante ter mais prazer em se apresentar em lugares afastados, ermos de cultura e carentes de outros acessos. “É muito bom ver um público que não sabe bem quem você, se é famosa ou não, mas já ouviu alguma música sua, um público com grandes diferenças de idade. Antigamente eu estranhava que só tinha adolescente na minha plateia e hoje veja uma faixa etária bem variada”, justifica.  
Os jovens são fruto do primeiro CD comercial, totalmente dedicado ao drum and bass e suas possíveis combinações e que fez Fernanda premiada e elogiada por publicações especializadas e tradicionais como a Veja, que dedicou uma reportagem a dizer que ela foi a primeira compositora a consagrar o ritmo eletrônico no rádio, além de emplacar cinco hits num álbum de estreia. Depois vieram discos mais abertos musicalmente, a parceria ilustre com Chico Buarque na faixa “Roda Viva”, de “Giramundo”, e trilhas de filmes com Chico e mais Ná Ozzeti, Toni Garrido e os integrantes da banda Living Colours, Will Calwoun e Doug Wimbish. E assim o público se diversificou. 
É chegada a hora de retribuir e Fernanda vai, sem deixar de lado os múltiplos instrumentos que toca, se fazer percebida como intérprete. Acaba de gravar quinze músicas para compor um disco de repertório emocional e variado, com canções de Frejat, Marina Lima, Antônio Carlos e Jocafi e Fagner e Lulu Santos.
“Muitos efeitos de processamento são prazerosos de fazer e compor é bom com o violão, mas esse disco só tem minha voz e o timbre insubstituível do piano, o instrumento que eu adoro e que tenho no meu estúdio.”

Fotos: Renan Rêgo
* Matéria publicada na revista LivingFor. Texto e fotos contém direitos autorais.


terça-feira, 5 de março de 2013

Horizontais


Uma régua descansada sobre a mesa de trabalho, uma trena usada para medir novas cortinas. Fotos amareladas, com toda a família espremida nos cantos, querendo estar naquele registro. O mar na minha janela. Todas as formas hoje se resumiram a uma e vejo tudo horizontal, com a lente de aumento da contemplação que só a distância oferece.

Os dígitos pares são os meus preferidos, das divisões iguais e do sentido de compartilhar sem qualquer vantagem. Por isso mesmo um número ímpar de anos nunca me apetece comemorar, mas ainda esses aniversários são como uma espécie de marco regulatório, um ponto para pensar, uma sombra para sentir coisas que a memória vai gastando pelo caminho.

Depois da última semana de muito trabalho e noites incompletas, uma epifania: hoje é o dia de lembrar de uma década, do tempo em que deixei a casa dos meus pais e a mesa sempre posta. Um grito de independência, como todo, de isolamento. A busca de um espaço importante para ouvir silêncios e fazer novas leituras.

Sou, de três, o filho do meio dos meus pais, o que ouve Bach e rói as unhas, como costumeiramente repito. Mas que agora não vê mais motivo para assanhar os cabelos, já que as unhas estão sempre roídas.

Crescemos sob as mesmas influências. Tenho a impressão de que poucas individualidades foram percebidas nos tempos de criança. Fomos preparados para fazer as mesmas escolhas e ter o mesmo fim, o que poderia ser melhor do que é, mas apenas não foi. Ao invés do excesso, minha inclinação acontece invariavelmente pela ausência.

Pouco conversamos sobre nossas diferenças. Éramos adaptáveis e nos faltava comunicação, por assim dizer. Havia uma mulher extremamente dominadora, fazendo escolhas e tomando decisões, e um pai que nada tinha de herói.

Pode ser duro, mas eu nunca quis ser igual a ele. Bastava que tivéssemos semelhanças físicas. E ele ter me dado o próprio nome, fazendo de mim um ser composto. Virei Cristiano Félix como qualquer José Inácio e João Antônio, sem nunca ter ganas de usar um sobrenome. Não pensei no mesmo formato de família, sequer na mesma profissão. Por outro lado, acho que já fiz todas as outras conjecturas e, para mim, escolher o ofício do pai, aceitando os riscos de repetir e da comparação inevitável, é um ato de extrema admiração. Isso não existia.

Era quase hora do almoço. A varanda tinha as mesmas cadeiras brancas e o jardim ao redor um verde que só é possível encontrar quando é regado nas primeiras horas da manhã, quando se madruga. Duas doses, uma de cerveja e uma de uísque e veio a proposta meio acanhada. Meu quarto naquela casa, que parecia aumentar de tamanho, continuava vazio.

Faz quatro anos dessa história surgida durante uma visita de cortesia. Vou à casa dos meus pais como frequento a de qualquer amigo e deito os meus olhos, pra me deixar maravilhar. Eles agora são avós, o espaço volta a ter uma criança fazendo barulho e algazarra e eu sinto cada vez mais vontade de ter esse mesmo frescor juvenil, um filho, ser admirado por alguém, mesmo sabendo que isso nem sempre acontece de pronto.

Aliás, hoje acho que também cheguei a outra conclusão. A data do aniversário pode ser a mais feliz e pode não ser. Posso receber telefonemas e comemorar. Ou não fazer nada disso. Quando se tem amigos por perto qualquer dia pode ser surpreendente. E é melhor que seja assim. 



Dos anos 1980, com meu pai e Catharine, minha irmã.