sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Gente carente e assaltantes, por favor, longe de mim

Havia tempos que queria ter uma bicicleta. Depois da experiência quando ainda era adolescente tive uma segunda vez já com cabelos brancos. Os fios é que apareceram cedo. Tenho 26 anos de idade e eles já tomam quase metade da minha cabeça. Mas a despeito do que possam parecer depois de tomar emprestada por alguns meses a bike de uma amiga, tomei gosto e resolvi comprar uma.
Percorri um par de lojas, liguei para um amigo que pratica corrida de aventura e entende do riscado, pedi orientação, me assustei com os valores, com a formação de cartel que os vendedores justificam dizendo que o preço é tabelado pelos fabricantes e por fim escolhi a minha. Uma Merida, preta, com 24 marchas e aro 21, ideal pro meu tamanho, já que a altura do meu cavalo é 89,5 centímetros.
No instante em que estava na loja conheci quatro pessoas que pedalam pela cidade, fazem trilha em dias que acordam fora de estrada e saem sempre em grupo. Todas elas se apresentaram, conversaram, pediram meu telefone – e eu dei – e me ligaram em menos de 24 horas pra convidar para algum passeio.
Agradeci e neguei todos os convites. Em geral as pessoas que pedalam me parecem muito carentes. Não tenho falta de amigos e gosto de bancar o sedentário em uma mesa de bar, dividindo cervejas com os mais chegados. Logo, não sirvo para ser atleta e tampouco tenho a disposição de pedalar todos os dias.
Minha bunda ficou toda dolorida depois da primeira hora em cima dela. No dia seguinte foi ainda pior. Ainda bem que inventaram uma tecnologia fantástica que é a de acolchoar as bermudas com espuma feita para roupa de astronauta. Essa, em minha opinião, só perde para a invenção do chuveiro elétrico e, claro, o controle remoto.
Passei a andar em dias intercalados. De quando em vez com um ou dois amigos. Noutras sozinho, ouvindo silêncios ou alguma seleção musical com fones de ouvido. Bons momentos.
Passava das oito da noite quando resolvi largar o penúltimo capítulo da novela pela metade para das umas voltas. O percurso era menor que o habitual pelo nobre motivo do encontro pouco mais de uma hora depois num boteco. Saí de casa com todos os equipamentos de segurança, água, o Ipod, telefone e um molho de chaves.
O vento batia forte no meu rosto no momento em que descia uma avenida larga. Vinha pelo acostamento. Os carros que esperavam o semáforo passaram por mim. Peguei embalo. Isso em ajudaria numa subida logo adiante. Concentração. Quando levantei a cabeça havia um homem encapuzado descendo um morro, vindo em minha direção.
De cara tomei um susto. Não pela arma na mão, mas pela primeira vez tive medo de uma máscara de carnaval. Era tipo um lobisomem, só que com um revólver apontado pra mim. E aos gritos. Logo chegou outro folião pra curtir comigo. Ele mandou e eu obedeci. Desci da bike e lhe estendi. Questionei quando pediu a bolsa. Mas só tem água e as chaves de casa, retruquei. Tire a mochila e vire!
0004-2009-00332. Esse é o número do boletim de ocorrência que fiz depois do episódio. Mais uma vez não vai dar em nada. Na hora nem viatura havia na delegacia mais próxima. E por aquelas bandas, perto do Parque de Natal, como disse o policial que me atendeu: a coisa ta feia. Bandido atira mesmo.
Voltei pra casa com o vento batendo no rosto entristecido. E pensando no conselho que minha mãe me dá e que, seguro, recebeu da sua. Hoje, discordo. Antes mal acompanhado do que só. Com ciclistas obcecados em aumentar o grupo eu só ia ter de tomar um açaí no final da noite e fazer ouvidos mocos ou terapeutizar os mais aflitos.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Um rapaz da moda

Dava pra ver pela arrumação do loft que não havia preocupação em dispor de objetos. Aquele era um refúgio de relações afetivas amistosas. Encontros fugazes e tórridos que quase sempre não tinham seqüência. Tão espaçados quanto a manutenção do gás da geladeira que sempre abrigava refeições ligeiras com o prazo de validade expirado.
As paredes eram quase sem cor. Precisavam de uma tinta. As janelas viviam fechadas, assim como a varanda com portas corrediças de vidro. A luz entrava, mas o vento não. E a poeira se alojava por sobre os móveis comprados em uma loja de segunda mão.
Eu vivia dentro desse espaço sem conviver bem com espelhos. Tinha apenas um dentro do apartamento. E ainda assim nós nos comportávamos como Calistenes e Alexandre, o Grande. Tudo seguia bem até que meu lado conquistador emergiu e cismou em querer ser divino. E a filosofia, que nada tem a ver com o reflexo da realidade, não poderia ser submetida a tão tolo capricho.
Era uma época de muitas mudanças. Eu queria conquistar uma garota que quando deslumbrava a rua com um sorriso, por aquela janela, o espírito anunciava a total imortalidade da sua beleza. Ela resplandecia uma luz hiperbórea e eu tinha a amoralidade do suor como desgaste. Eu era calor e preferia tato. E ela, brilho.
O dia começava bem cedo e tinha horas marcadas. Rotina de gente moderna, que era vista e ouvida em vários lugares. Pagava um preço alto por isso. Sentia ansiedade e repetia o discurso social de aceleração das máquinas, dinamismo. Foi assim até conhecer a dona do sorriso mais cortante do bairro e descobrir que minha onipresença me fazia ausente de mim mesmo.
Meu desejo preferia os anacronismos. Parecia não se preocupar muito com o andar, mas jogava o quadril repetindo movimentos que teriam sido milimetricamente ensaiados. Parecia também não se preocupar com a maneia de vestir, mas certamente aquela estética desordenada custava horas de produção. Difícil entender essa colcha de retalhos. Ora trivial, ora desconexa.
Só queria uma aproximação. Não pediria que dividisse comigo sua eternidade. Minha pele mundana tinha urgência de nudez e de possibilidades. E para conseguir estender-lhe a mão, construí com meu reflexo uma trama de anatomias inconfessadas. A despeito de múltiplos obstáculos, fingindo ter coerência, imitei para ser aceito.
Casaco cool de estilo aviador feito com materiais orgânicos ficando por cima da camiseta com fibra de bambu. Cabelo desgrenhado, calça skinny e botas rasteiras de camurça verde, como as do Peter Pan, usadas sem meia. Vestido dessa forma vi que ser contemporâneo é mesmo instigante.
Foi numa festa nosso encontro por mim premeditado. Ela me olhou, mas não me viu. Parecia ter dificuldades em escolher entre tantas da mesma opção. Eu estava igualzinho aos outros caras. Ali, era como uma massa de trota salgada. Sem histórias, experiências. Sem um diferencial. Tão entediante que não acrescentava nada.
O retorno ao meu território aconteceu antes de virar abóbora em público. Naquele espaço de relações furtivas, tirei a roupa, deitei na cama e acordei desse sonho ainda excitado. No som, em modo repeat, ecoavam versos da nona faixa do álbum déjà-vu, do Metrô. Letra de Evaldo Gouvêa e Jair Amorim. “Um rapaz da moda eu vou ser pra ver se ela gosta de mim...”.

*Texto publicado no Anuário da Moda Potiguar - POSE.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Em oito minutos

Já tive umas das melhores transas da minha vida. Sou capaz de engolir sanduíche e batata frita com a ajuda de um refrigerante se estiver atrasado pra o trabalho. Torço pra sair do banco. Danço duas músicas debaixo do chuveiro. Consigo prepara quatro tapiocas ou dois miojos. Decido ir à praia, visto uma sunga e saio. Posso viver intensamente e lembrar isso pelo resto da vida. Acredito que é tempo suficiente para se virar o jogo. E, afortunadamente, em 2009 terei oito minutos a mais.
Para a noite de reveillon alguns cuidados. Cueca cor-de-rosa, sementes de uva guardadas, porco como prato principal da ceia – fuça pra frente e garante armários cheios o ano todo -, chinelo de couro branco com dinheiro preso na sola por uma fita adesiva pra começar o ano pisando na grana. Bom, ao menos os orientais dizem que a energia entra pelos pés. Então achei que tentar não faria mal.
Cumprir tantos rituais devia ser pra tentar substituir a ausência do mar. Havia não sei nem quanto tempo que sempre na virada eu pulava sete ondas, apesar de preferir os números pares. Esse ano começou mesmo diferente. Na laje da casa de um amigo, onde sempre há um abraço acolhedor, um churrasco ao ponto e muita gente bacana. Aliás, bacana e encarando uma proposta “avonts” mesmo na noite de reveillon.
Pouca gente levava um relógio no pulso e ninguém se lembrou de olhar as horas. Puxei o celular. Marcava 11h52. Os fogos começaram a estourar. Dançando, ninguém tinha se dado conta de que já era ano novo – ou não! Abraços, brindes, fotos.
Doze meses são suficientes pra se ficar exausto e entregar os pontos. Mas como já disse Drummond, aí entra dezembro e com ele a idéia de renovação no final do mês, de uma dia para o outro.
Quero uma nova história esse ano. Entrei nele trazendo oito minutos do que ficou no ontem. E hoje meu maior desejo é saber aproveitar esse tempo, que pode parecer pequeno, mas nele há espaço para muitas miudezas de que preciso.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Sobre amuletos e ciclos

O braço direito formou um arco e o punho foi parar nas costas. Veio o impulso e ele abriu a mão, deixando saltar uma medalha. E então deslumbrou o mar com os olhos de menino, cantou os derradeiros versos enquanto seu lamento caia por sobre o rosto, fazendo líquida a maresia daquela última tarde de verão.
Havia mais de dez anos que estavam juntos. Durante alguns estiveram agarrados pelo pescoço. Noutros pelo pulso, ou mesmo pela lembrança guardada em uma caixa vermelha cheia de tranqueiras, de um passado ora quimérico, ora real.
Aquele pingente de metal era como uma gema milagrosa. Tinha dupla face. Em um lado a inscrição de uma jangada. Do outro, o desenho preferido do garoto que vivia com a cabeça no espaço: a cintura da constelação do equador celeste Órion, com as estrelas Alnitak, Alnilam e Mintaka – as Três Marias.
Aquele garoto não tinha nada de mais. Nenhum desenho gravado no corpo, nenhum jeito engraçado, nenhum trato com as brincadeiras de criança. Tinha um brilho no olho, mas só sua mãe conseguia enxergar. Ela também sabia disso e se sentia cada vez mais incomodada.
Para sair de casa o menino percorria um ritual. Estava sempre vestido de modo a tentar destacar o que não existia no corpo franzino. De quando em vez uma pulseira dourada ou uma corrente com um crucifixo pendurado. Assim parecia mais com outros da mesma idade e que sempre recebiam qualquer elogio, como trocados no semáforo.
Numa viagem à Recife, parou em frente a uma vitrine de loja. Puxou a mãe pelo braço e lhe disse: essa é minha medalha da sorte. Saiu de lá com ela pendurada em um rabo de rato de prata. O pingente em forma de gota não tinha a opacidade dos anos gastos, parecia refletir a exuberância do garoto.
Depois de tanto tempo a relação dos dois era mais que simples simbologia. Se passava pro um aperreio era só apertar, se fechando como dedos. Por isso foi tão difícil abrir a mão naquela hora. Mesmo ele já sendo um homem feito, chorou feito menino. Quiçá daquele gesto nasça uma nova alegria.
É saber que o oceano é imenso. Muito maior que aquele punhado de sonhos. Mas ainda que tão profundo, o mar terá mais uma desimportância na sua coleção de tesouros naufragados.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Vc tá on?

O modo é informal e a gente sempre começa um papo mais ou menos assim. Eu vivo me escondendo no MSN – essa revelação pode inclusive me render alguma encrenca, mas fiz comigo mesmo o juramento de não mentir ao menos aqui no blog. O Luis já sabe disso. A gente se conheceu na net mesmo, visitando o endereço um do outro. Eu escrevo bobagens e ele é letrado e fala sobre cultura. Mas mesmo com tantas diferenças a gente se entende.
Nunca me identifiquei muito com relacionamentos através de meios modernos de comunicação eletrônica. Até já escrevi isso há uns quatro anos, quando descobri que havia 100 dias que uma amiga que mora perto de mim, em Natal, namorava um cara que vivia em Goiânia e ela nunca tinha visto pessoalmente.
Era um transtorno encontrar e tentar estabelecer um diálogo com minha amiga. O celular dela não parava de tocar. Um som chato que significava mais um SMS chegando – e saindo logo em seguida, evidentemente. Mas não bastasse isso, os namorados jantavam juntos, em frente ao computador. Dividiam o mesmo rótulo do vinho e marca do yogurt de sobremesa. O cardápio invariavelmente era uma sopa instantânea de cenoura com erva doce. Eles acrescentavam azeite, limão e pimenta do reino. Foi assim até que os envelopes começaram a sumir das prateleiras do supermercado.
Ela, que teve usurpado o direito de permanecer em regime, tratou de resolver isso. Mandou um e-mail pro serviço de atendimento ao consumidor do fabricante da sopa. E recebeu em casa um cesta com vários outros sabores e a sugestão de que experimentassem as novidades. Aquele, infelizmente, tinha saído de linha.
Tive de ouvir muitas histórias desses dois. Por um bom tempo, inclusive. Quando acabou eu nem fiquei ciente do motivo, mas pelo que me consta eles nem chegaram a se encontrar. Difícil nisso tudo é dizer que não deu certo. O sorriso que ela sempre carregava era sinal de felicidade. E qualquer um conseguia ver. Eu nunca pequei por recriminar aquela relação, mesmo me causando certa estranheza.
Meu delay era de alguns anos. Há pouco comecei a entender melhor que as pessoas buscam conhecer outras pela rede mundial de computadores. Talvez sejam tímidas pra uma primeira conversa ao vivo. Talvez tenham preguiça de sair de casa sem saber se o cara tem algum cacuete como piscar os olhos repetidas vezes – isso me aflige um pouco.
Ainda não consigo ser vanguardista e achar normal alguém se produzir inteiro para ficar em frente a uma máquina com uma micro-câmera ligada, tentando seduzir outro. Mas não vou me apressar e dizer que nunca copiarei.
Eu ando fazendo amigos pela internet. E acho isso bacana. Claro que os laços só se estreitam quando a gente conhece, aperta a mão, abraça, quando existe tato, enfim. Dia desses, numa viagem, fui bater na cidade onde mora o Luis. Nós nunca tínhamos olhado no olho. Só comentávamos um no blog do outro e havia compartilhamento de outros textos e gostos.
Até que a gente se viu. E só se viu um dia. Mas que durou o dia inteiro. E agora parece que as afinidades aumentaram. Aliás, preciso dizer uma coisa em off, baixinho. Luis, vc tá aí?

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Futura impassibilidade

Parece que falta opção. Folga no meio da semana e tem gente que se perde, achando que não há nada pra fazer. Rotina louca essa que cega as pessoas. Enfim. Digo isso porque ouvi um relato de algumas horas de ócio que foram aproveitadas numa barraca à beira mar. Um amigo meu que disse.
Era segunda-feira. Uma família, pelos traços e sotaque, provavelmente de fora, curtia a praia. Um casal na melhor idade, duas filhas adultas cada uma com uma criança. Ou seja, três gerações. Uma das mulheres tinha tatuado o nome da filha nas costas. Alicia era como se chamava.
A garota e o priminho tinham um espaço delimitado por uma linha imaginária que corria paralela a uma cadeira reclinada. Mas pela tábua de marés aquela era hora do mar encher outra vez. E as ondas por vezes passavam daquele ponto, derrubavam e carregavam as crianças por meio metro.
Quando acontecia, a mãe de Alicia imediatamente gritava: venha já para o banquinho! Era um banco alto que estava colocado entre a cadeira de sol dela e a da irmã. A pequena ficava ali por cerca de dois minutos até que era liberada outra vez para continuar a farra da areia. Em alguns momentos o mesmo aconteceu com o menino. Um pouco menos. Quiçá porque ele fosse mais durinho. Parecia ter uns seis anos. Um ou dois a mais que ela.
Na imaginação dos outros, sendo tão metódicas, parecia que aquelas mulheres participaram de alguma das cinco temporadas do programa da Super Nanny ou eram jogadoras de handball e aplicavam a punição dos dois minutos nos filhos – a que durante a partida o jogador cumpre no banco por ter feito uma falta desnecessária ou por causa de uma substituição incorreta.
Do lado de fora, sem ter visto a cena, fico imaginando que há coisa pior do que não saber aproveitar quando a semana pode começar na terça-feira. É ter intransigência no educar. Filhos aprendem a ficar quietos e crescem. Talvez terminem tendo a fleuma elegante da inércia e só descubram o sexo após os 30. Pais cruéis!