sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Em oito minutos

Já tive umas das melhores transas da minha vida. Sou capaz de engolir sanduíche e batata frita com a ajuda de um refrigerante se estiver atrasado pra o trabalho. Torço pra sair do banco. Danço duas músicas debaixo do chuveiro. Consigo prepara quatro tapiocas ou dois miojos. Decido ir à praia, visto uma sunga e saio. Posso viver intensamente e lembrar isso pelo resto da vida. Acredito que é tempo suficiente para se virar o jogo. E, afortunadamente, em 2009 terei oito minutos a mais.
Para a noite de reveillon alguns cuidados. Cueca cor-de-rosa, sementes de uva guardadas, porco como prato principal da ceia – fuça pra frente e garante armários cheios o ano todo -, chinelo de couro branco com dinheiro preso na sola por uma fita adesiva pra começar o ano pisando na grana. Bom, ao menos os orientais dizem que a energia entra pelos pés. Então achei que tentar não faria mal.
Cumprir tantos rituais devia ser pra tentar substituir a ausência do mar. Havia não sei nem quanto tempo que sempre na virada eu pulava sete ondas, apesar de preferir os números pares. Esse ano começou mesmo diferente. Na laje da casa de um amigo, onde sempre há um abraço acolhedor, um churrasco ao ponto e muita gente bacana. Aliás, bacana e encarando uma proposta “avonts” mesmo na noite de reveillon.
Pouca gente levava um relógio no pulso e ninguém se lembrou de olhar as horas. Puxei o celular. Marcava 11h52. Os fogos começaram a estourar. Dançando, ninguém tinha se dado conta de que já era ano novo – ou não! Abraços, brindes, fotos.
Doze meses são suficientes pra se ficar exausto e entregar os pontos. Mas como já disse Drummond, aí entra dezembro e com ele a idéia de renovação no final do mês, de uma dia para o outro.
Quero uma nova história esse ano. Entrei nele trazendo oito minutos do que ficou no ontem. E hoje meu maior desejo é saber aproveitar esse tempo, que pode parecer pequeno, mas nele há espaço para muitas miudezas de que preciso.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Sobre amuletos e ciclos

O braço direito formou um arco e o punho foi parar nas costas. Veio o impulso e ele abriu a mão, deixando saltar uma medalha. E então deslumbrou o mar com os olhos de menino, cantou os derradeiros versos enquanto seu lamento caia por sobre o rosto, fazendo líquida a maresia daquela última tarde de verão.
Havia mais de dez anos que estavam juntos. Durante alguns estiveram agarrados pelo pescoço. Noutros pelo pulso, ou mesmo pela lembrança guardada em uma caixa vermelha cheia de tranqueiras, de um passado ora quimérico, ora real.
Aquele pingente de metal era como uma gema milagrosa. Tinha dupla face. Em um lado a inscrição de uma jangada. Do outro, o desenho preferido do garoto que vivia com a cabeça no espaço: a cintura da constelação do equador celeste Órion, com as estrelas Alnitak, Alnilam e Mintaka – as Três Marias.
Aquele garoto não tinha nada de mais. Nenhum desenho gravado no corpo, nenhum jeito engraçado, nenhum trato com as brincadeiras de criança. Tinha um brilho no olho, mas só sua mãe conseguia enxergar. Ela também sabia disso e se sentia cada vez mais incomodada.
Para sair de casa o menino percorria um ritual. Estava sempre vestido de modo a tentar destacar o que não existia no corpo franzino. De quando em vez uma pulseira dourada ou uma corrente com um crucifixo pendurado. Assim parecia mais com outros da mesma idade e que sempre recebiam qualquer elogio, como trocados no semáforo.
Numa viagem à Recife, parou em frente a uma vitrine de loja. Puxou a mãe pelo braço e lhe disse: essa é minha medalha da sorte. Saiu de lá com ela pendurada em um rabo de rato de prata. O pingente em forma de gota não tinha a opacidade dos anos gastos, parecia refletir a exuberância do garoto.
Depois de tanto tempo a relação dos dois era mais que simples simbologia. Se passava pro um aperreio era só apertar, se fechando como dedos. Por isso foi tão difícil abrir a mão naquela hora. Mesmo ele já sendo um homem feito, chorou feito menino. Quiçá daquele gesto nasça uma nova alegria.
É saber que o oceano é imenso. Muito maior que aquele punhado de sonhos. Mas ainda que tão profundo, o mar terá mais uma desimportância na sua coleção de tesouros naufragados.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Vc tá on?

O modo é informal e a gente sempre começa um papo mais ou menos assim. Eu vivo me escondendo no MSN – essa revelação pode inclusive me render alguma encrenca, mas fiz comigo mesmo o juramento de não mentir ao menos aqui no blog. O Luis já sabe disso. A gente se conheceu na net mesmo, visitando o endereço um do outro. Eu escrevo bobagens e ele é letrado e fala sobre cultura. Mas mesmo com tantas diferenças a gente se entende.
Nunca me identifiquei muito com relacionamentos através de meios modernos de comunicação eletrônica. Até já escrevi isso há uns quatro anos, quando descobri que havia 100 dias que uma amiga que mora perto de mim, em Natal, namorava um cara que vivia em Goiânia e ela nunca tinha visto pessoalmente.
Era um transtorno encontrar e tentar estabelecer um diálogo com minha amiga. O celular dela não parava de tocar. Um som chato que significava mais um SMS chegando – e saindo logo em seguida, evidentemente. Mas não bastasse isso, os namorados jantavam juntos, em frente ao computador. Dividiam o mesmo rótulo do vinho e marca do yogurt de sobremesa. O cardápio invariavelmente era uma sopa instantânea de cenoura com erva doce. Eles acrescentavam azeite, limão e pimenta do reino. Foi assim até que os envelopes começaram a sumir das prateleiras do supermercado.
Ela, que teve usurpado o direito de permanecer em regime, tratou de resolver isso. Mandou um e-mail pro serviço de atendimento ao consumidor do fabricante da sopa. E recebeu em casa um cesta com vários outros sabores e a sugestão de que experimentassem as novidades. Aquele, infelizmente, tinha saído de linha.
Tive de ouvir muitas histórias desses dois. Por um bom tempo, inclusive. Quando acabou eu nem fiquei ciente do motivo, mas pelo que me consta eles nem chegaram a se encontrar. Difícil nisso tudo é dizer que não deu certo. O sorriso que ela sempre carregava era sinal de felicidade. E qualquer um conseguia ver. Eu nunca pequei por recriminar aquela relação, mesmo me causando certa estranheza.
Meu delay era de alguns anos. Há pouco comecei a entender melhor que as pessoas buscam conhecer outras pela rede mundial de computadores. Talvez sejam tímidas pra uma primeira conversa ao vivo. Talvez tenham preguiça de sair de casa sem saber se o cara tem algum cacuete como piscar os olhos repetidas vezes – isso me aflige um pouco.
Ainda não consigo ser vanguardista e achar normal alguém se produzir inteiro para ficar em frente a uma máquina com uma micro-câmera ligada, tentando seduzir outro. Mas não vou me apressar e dizer que nunca copiarei.
Eu ando fazendo amigos pela internet. E acho isso bacana. Claro que os laços só se estreitam quando a gente conhece, aperta a mão, abraça, quando existe tato, enfim. Dia desses, numa viagem, fui bater na cidade onde mora o Luis. Nós nunca tínhamos olhado no olho. Só comentávamos um no blog do outro e havia compartilhamento de outros textos e gostos.
Até que a gente se viu. E só se viu um dia. Mas que durou o dia inteiro. E agora parece que as afinidades aumentaram. Aliás, preciso dizer uma coisa em off, baixinho. Luis, vc tá aí?

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Futura impassibilidade

Parece que falta opção. Folga no meio da semana e tem gente que se perde, achando que não há nada pra fazer. Rotina louca essa que cega as pessoas. Enfim. Digo isso porque ouvi um relato de algumas horas de ócio que foram aproveitadas numa barraca à beira mar. Um amigo meu que disse.
Era segunda-feira. Uma família, pelos traços e sotaque, provavelmente de fora, curtia a praia. Um casal na melhor idade, duas filhas adultas cada uma com uma criança. Ou seja, três gerações. Uma das mulheres tinha tatuado o nome da filha nas costas. Alicia era como se chamava.
A garota e o priminho tinham um espaço delimitado por uma linha imaginária que corria paralela a uma cadeira reclinada. Mas pela tábua de marés aquela era hora do mar encher outra vez. E as ondas por vezes passavam daquele ponto, derrubavam e carregavam as crianças por meio metro.
Quando acontecia, a mãe de Alicia imediatamente gritava: venha já para o banquinho! Era um banco alto que estava colocado entre a cadeira de sol dela e a da irmã. A pequena ficava ali por cerca de dois minutos até que era liberada outra vez para continuar a farra da areia. Em alguns momentos o mesmo aconteceu com o menino. Um pouco menos. Quiçá porque ele fosse mais durinho. Parecia ter uns seis anos. Um ou dois a mais que ela.
Na imaginação dos outros, sendo tão metódicas, parecia que aquelas mulheres participaram de alguma das cinco temporadas do programa da Super Nanny ou eram jogadoras de handball e aplicavam a punição dos dois minutos nos filhos – a que durante a partida o jogador cumpre no banco por ter feito uma falta desnecessária ou por causa de uma substituição incorreta.
Do lado de fora, sem ter visto a cena, fico imaginando que há coisa pior do que não saber aproveitar quando a semana pode começar na terça-feira. É ter intransigência no educar. Filhos aprendem a ficar quietos e crescem. Talvez terminem tendo a fleuma elegante da inércia e só descubram o sexo após os 30. Pais cruéis!

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Eu digo, tu reclamas, nós nos apartamos

Estou ocupado. Sem tempo a perder justificando a razão que me leva a escrever. Muitas vezes sobre mim, os que me cercam, sobre minhocas, o céu limpo, os dias de chuva, as impressões do trabalho, a gravidade deformando os corpos, as músicas que não ouço mais e as embalagens de CDs que estão empoeiradas.
Tornar verbo essa miudezas não é uma simples ocupação. A ação me ajuda a entender melhor e a explicar quando as palavras não podem ser ditas pessoalmente. Por isso o único que espero como resposta é que tentem entender. Não sendo possível, que ao menos calem. Seria uma forma de respeito.
Outro dia o meu telefone tocou. Era um número conhecido, mas que já não tinha foto piscando ao lado. Só um nome que soa mal pra minha estrutura de vida. Estava guardado por um desses acasos, que não detalham antecipadamente quem a gente vai encontrar e os desencadeamentos.
Afrontando a minha ideologia, ouvi pacientemente o pedido para que retirasse um texto antigo. Com o apelo, senti do outro lado da linha o medo. E mesmo achando uma agressão, considerei o pedido legítimo.
A gente de quando em vez se agride pensando no outro. Os problemas não eram meus. Pouco me dá se alguém começa ou termina uma relação escrevendo. Ou se faz suas queixas literariamente ou apenas de modo introspectivo. E trata na análise ou desconta no próximo.
Todas as histórias têm princípio, meio, registros, brigas, fotografias guardadas, entrega e incompatibilidades, uma canção marcante e final. Cedo ou outro dia. Ficam as impressões e, em alguns casos, vídeos que mostram o desejo vivo e ajudam a conter os impulsos.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Atualizações

A inutilidade dos meios de comunicação já não me aflige.
Olho incólume para o celular e o computador jogados no sofá da sala.
Saio pra cozinha pra preparar um café.
Pensar ter ouvido o toque do telefone é outra das coisas ficaram no antes.
No agora foram abertas as portas da fantasia.
É que do lado da lá habitam infindas possibilidades.
E numa delas estou encontrando uma nova fonte de inspiração.